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terça-feira, 25 de julho de 2017

Turistas e artistas hoje querem visitar casas do povo medieval

Casas populares em Colmar, Alsácia, França
Casas populares em Colmar, Alsácia, França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Não é preciso recorrer a documentos; basta olhar os monumentos medievais que restam hoje em dia e que os turistas do mundo inteiro vão admirar para ver que o povo na Idade Média não se reduzia à manada de gente pobre, esquálida, sugada, de que nos falam os anti-medievalistas frenéticos de nossa época.

Basta ver as bonitas casas populares de uma cidade histórica na Europa.

Na foto, as casas se refletem poeticamente no curso de água.

Muito caracteristicamente os vigamentos que estão do lado de fora constituem um ornato e os terraços todos no verão têm flores como na foto embaixo.

Todas essas casas pertenciam à plebe na Idade Média. Eram casas de plebeus, alojamentos de burgueses, ou trabalhadores manuais.

Com este conforto e bom gosto vivia a plebe na Idade Média, da qual tanto mal se fala em nossos dias.

Para ver essas casas populares da Idade Média viajam turistas e artistas do mundo inteiro.

Aldeia de Kayserberg, Alsácia, França
Aldeia de Kayserberg, Alsácia, França
São obras de arte. Quem é que construía essas obras de arte?

Não eram grandes engenheiros especializados. Eram artesãos comuns saídos da plebe, mas educados num ambiente de tanto idealismo, poesia e cultura que eles faziam isso com toda naturalidade.

Os construtores dessas casas não são célebres. Geralmente foram famílias que Foram aperfeiçoando um sonho comum. Os nomes deles foram esquecidos, as casas ficaram. Do mundo inteiro vão pessoas para ver.

Pensemos num bairro popular da periferia de uma grande cidade. Transitando por eles a gente vê um número enorme de construções.

Os turistas do futuro vão vir vê-las no século futuro e parar extasiados? O que é que o século XX trouxe de melhor ao povo do que a Idade Média?

Beehive Cottage, Lyndhurst, Grã-Bretanha. O cottage é uma casa rural típica inglesa
Beehive Cottage, Lyndhurst, Grã-Bretanha. O cottage é uma casa rural típica inglesa

Casas medievais desse tipo têm espalhadas pela Europa inteira. Na França, Alemanha, Portugal, Suíça, Inglaterra, etc.

Tem por toda parte e por toda parte houve muitas mais ainda. Muitas foram destruídas porque envelhecem e foram reformadas com outros estilos, outras ficaram.

Mas, estas eram a habitação comum das cidades. Era portanto o modo de viver do operário na Idade Média.

Realmente, a Idade Média foi a era de ouro do operário europeu.



(Fonte: Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de palestra em 22/4/1973. Sem revisão do autor).


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quarta-feira, 19 de julho de 2017

A família medieval: muitas gerações
e uma mesma herança espiritual e material

Conceito medieval da família: a árvore genealógica e a continuidade familiar
Conceito medieval da família: a árvore genealógica e a continuidade familiar
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





A família foi a alma viva da ordem cristã medieval. A sua influência continuou - e continúa - muito depois.

Eis como o erudito Mons. Delassus nos fala de seu benéfico influxo nos séculos passados:

"Citemos como exemplo algumas linhas extraídas do livro de família (*) de André d'Ormesson, conselheiro de Estado [na França] no século XVII:

Que nossos filhos conheçam aqueles dos quais descendem por parte de pai e mãe, que eles sejam incitados a rezar a Deus pelas suas almas e a bendizer a memória das pessoas que, com a graça de Deus, honraram a sua casa e adquiriram os bens de que eles usufruem.

"Outro pai de família escreve em 1807:

Encontrareis, meus filhos, uma sequência de ancestrais estimados, considerados, honrados na sua região e por todos os seus concidadãos.

Uma existência honesta, uma fortuna mediana, mas uma reputação sem mancha, eis o capital que vem sendo transmitido, durante quatrocentos anos, por onze pais de família que jamais abandonaram o nome que receberam nem a terra em que nasceram.

"Por esta palavra família, portanto, não se entendia somente, como hoje, apenas o pai, a mãe e os filhos, mas toda a linhagem dos ancestrais e a dos descendentes que viriam.

"Para ser assim una e contínua através dos séculos, ela tinha não somente a continuidade do sangue, mas também, se assim se pode dizer, um corpo e uma alma perpétuos.

"O corpo era o bem de família que cada geração recebia dos ancestrais, como depósito sagrado. Ela o conservava religiosamente, esforçava-se para aumentá-lo e o transmitia fielmente às gerações seguintes.

"A alma eram as tradições, isto é, as ideias dos antepassados e seus sentimentos, bem como os hábitos e costumes que daí decorriam.


Almoço na casa do prefeito Rockox, Frans Francken II
Almoço na casa do prefeito Rockox. Frans Francken II (1581-1642)
"Uma lei escrita no coração dos franceses, consagrada por um costume multissecular, assegurava a transmissão do patrimônio de uma geração a outra.

"E um tríplice ensinamento:

o primeiro, dado pela conduta dos pais que os filhos tinham diante dos olhos;

o segundo, que lhes era ensinado pelas exortações, conselhos e admoestações que recebiam;

e o terceiro, contido nos escritos, chamados livros de contas ou livros de família, mantidos e atualizados por cada geração. Tudo isso garantia a transmissão das tradições familiares.

"Hoje em dia os livros de família não existem mais, nem mesmo sob a forma de recordações, a não ser nos arquivos dos eruditos.

"O patrimônio só é considerado pelos filhos como um butim a ser dividido. E quantos há, entre nós, que podem citar os nomes de seus bisavós?

"A família não mais existe na França. E é isso, digamo-lo de passagem, que explica os parcos resultados obtidos pelos padres e religiosos que tiveram em mãos, durante meio século, o ensino primário e secundário de mais da metade da população.

"Suas lições não mais encontravam, como base para assentar-se, aquele fundamento sólido que as tradições de família devem inculcar na alma da criança.

Familia camponesa na Austria
Família camponesa na Áustria
"Não é só a família que já não existe na França, mas não resta mais nada da constituição social que a História viu originar-se da família em todos os povos civilizados.

"A família real foi decapitada, as famílias aristocráticas foram dizimadas, e aquelas que escaparam ao massacre e à ruína foram colocadas, pelas leis, na impossibilidade de agir e até mesmo de conservar sua posição.

"Enfim, as mesmas leis colocam as famílias burguesas e proletárias na impotência para se elevarem de modo contínuo.

"Nem em Atenas nem em Roma a sociedade se reergueu, uma vez desmoronada sobre si mesma.

"O Cristianismo nos dá os meios de regeneração dos quais as sociedades pagãs não dispunham. Saberemos empregá-los?

"Durante um século, todos os nossos esforços fracassaram. Por quê? Porque sofrendo a ação deprimente das leis e dos costumes, baseadas nos sofismas de Rousseau, nós só temos as vistas postas no indivíduo.

"Atuamos sobre o indivíduo, em vez de considerar a família e orientar nossos esforços para reconstituí-la. A família reconstituída produzirá de novo homens.

"Este é o clamor geral: Não temos mais homens! Se não temos mais homens, é porque não temos mais famílias para produzi-los.

"E não temos mais famílias porque a sociedade perdeu de vista o objetivo da sua própria existência, que não consiste em oferecer ao indivíduo o maior número possível de prazeres, mas em proteger a germinação das famílias e ajudá-las a elevar-se cada vez mais alto.

Michiel van der Dussen e família. Pintor: Hendrick van Vliet (1611/1612 - 1675).   Stedelijk Museum Het Prinsenhof, Delft, Holanda
Michiel van der Dussen e família. Pintor: Hendrick van Vliet (1611/1612 - 1675).
Stedelijk Museum Het Prinsenhof, Delft, Holanda
“A família, já o dissemos, tem dois sustentáculos: o lar e o livro da família, chamado na França Livro de Contas. Ambos quebrados pelas leis.

"O primeiro diretamente, e o segundo por via de consequência. A transmissão do lar e do patrimônio que o contém formava, entre as gerações sucessivas, o vínculo material que as unia uma à outra.

·A esse primeiro vínculo se juntava um outro, que eram a genealogia e os ensinamentos dos ancestrais, consignados no livro em que a genealogia era registrada....

“A situação dos bens da família de Antoine de Courtois, cujo livro de contas foi publicado por Charles de Ribbe, era precedido destas linhas endereçadas aos seus filhos:

Meus bem-amados filhos, nós temos o usufruto dos nossos bens, dos quais somente podemos consumir os frutos. Nossos bens estão em nossas mãos para que trabalhemos sem cessar no sentido de melhorá-los, e depois para que os transmitamos aos que nos prolongarão no curso da vida.

Aquele que dissipa seu patrimônio comete um roubo horrível, pois trai a confiança de seus pais e desonra seus filhos.

Teria sido melhor, para ele e para toda a sua raça, que jamais tivesse nascido.

Tremei, portanto, ante a possibilidade de consumir os bens dos vossos filhos e de cobrir vosso nome de opróbrios.

"Estes pensamentos decorriam naturalmente do pensamento, que todos tinham no espírito, de que o lar e o domínio patrimonial eram o objeto de um tipo de fideicomisso perpétuo, que não era permitido diminuir, e que todos deviam esforçar-se para aumentar”.


(Mgr Henri Delassus, L'Esprit Familial dans la Maison, dans la Cité et dans l'État, Société Saint-Augustin, Desclée, De Brouwer, Lille, 1910, pp. 113-117).
 
NOTA:

(*) — "Le Livre de Famille": Um antigo costume que perdurou especialmente na França, mas também em alguns outros países europeus, consistia em narrativas – normalmente a cargo do primogênito – do dia-a-dia da família (nascimentos, casamentos, mortes, comentários etc.). Visava manter viva a memória das virtudes dos ancestrais nos descendentes, impulsionando-os para o bem, através das leituras e meditações que faziam dos ensinamentos narrados. Por estes livros se reconstituíam a genealogia e a história das famílias.



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terça-feira, 13 de junho de 2017

Proteção e fidelidade: bases das relações no trabalho feudal

Cozinheiros, vitral da catedral de Chartres
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Pode-se dizer da sociedade atual que ela se fundamenta sobre o salariado. No plano econômico, as relações de homem para homem reduzem-se às relações do capital e do trabalho.

Executar um trabalho determinado, receber em troca uma certa soma, tal é o esquema das relações sociais.

O dinheiro é o nervo essencial delas, pois com raras exceções uma atividade determinada se transforma de início em numerário, antes de se transformar novamente em objeto necessário à vida.

Para compreender a Idade Média, é preciso se afigurar uma sociedade vivendo de modo totalmente diverso, em que a noção de trabalho assalariado, e em parte até mesmo a do dinheiro, são ausentes ou secundárias.

O fundamento das relações de homem a homem é a dupla noção de fidelidade e proteção. Assegura-se a alguém seu devotamento, e em troca espera-se dele segurança.

Não se contrata sua atividade, tendo em vista um trabalho determinado com remuneração fixa, mas sua pessoa, ou antes sua fidelidade. Em retribuição, se oferece subsistência e proteção, no pleno sentido da palavra. Tal é a essência do liame feudal.

Mestre de ofício vai ensinando os aprendizes
Durante toda a Idade Média, sem esquecer sua origem territorial, senhorial, esta nobreza teve uma conduta sobretudo militar.

É que, de fato, seu dever de proteção comportava de início uma função guerreira: defender seu domínio contra as invasões possíveis.

Apesar dos esforços em reduzir o direito de guerra privada — tais guerras foram mitigadas pela ação da Igreja, mediante a trégua de Deus e a quarentena — ele ainda subsistia, e a solidariedade familiar podia implicar a obrigação de vingar pelas armas as injúrias feitas a um dos seus.

Acrescenta-se ainda uma questão de ordem material. Detendo a principal, senão a única fonte de riqueza, que era a terra, apenas os senhores tinham a possibilidade de equipar um cavalo de guerra e de armar escudeiros e oficiais.

O serviço militar será pois inseparável do serviço de um feudo, e a fidelidade prestada pelo vassalo nobre supõe auxílio de suas armas, todas as vezes que for necessário. Este é o primeiro encargo da nobreza e um dos mais onerosos: a obrigação de defender o domínio e seus habitantes.

A espada diz: “É minha justiça e encargo guardar os clérigos da Santa Igreja e aqueles que produzem o alimento”.

Os mais antigos castelos, aqueles que foram construídos nas épocas de turbulência e invasões, trazem a marca visível dessa necessidade.

A aldeia e as habitações dos camponeses estão nos arredores da fortaleza, em cujo recinto toda a população irá se refugiar por ocasião de perigo, e onde ela encontrará auxílio e mantimentos em caso de sítio.

Cheverny, armaduraDas obrigações militares da nobreza decorre a maior parte dos seus costumes.

O direito de primogenitura vem, em parte, da necessidade de confiar ao mais forte a herança que ele deve garantir, muitas vezes pela espada.

A lei sálica se explica também por isso, pois só um homem pode assegurar a defesa de um castelo (donjon).

Assim pois, quando uma mulher se torna a única herdeira de um feudo, o suserano tem o dever de casá-la.

Eis por que a mulher apenas sucederá após seus filhos mais jovens, e estes após o primogênito.

Estes só receberão apanágios, e ainda assim muitos desastres ocorridos pelo fim da Idade Média tiveram por origem os demasiados apanágios deixados a seus filhos por João, o Bom. O poder foi para eles uma tentação perpétua, e para todos uma fonte de desordem durante a minoridade de Carlos VI.

Os nobres têm igualmente o dever de fazer justiça a seus vassalos de todas as condições e de administrar o feudo.

Trata-se precisamente do exercício de um dever, e não de um direito, implicando em responsabilidades bastante pesadas, pois cada senhor deve dar contas de seu domínio, não somente à sua linhagem, mas também a seu suserano.

Etienne de Fougères descreve a vida do senhor de um grande domínio como cheia de preocupações e de cansaços:

Cá e lá vai, muitas vezes volta,
Não repousa nem descansa.
Perto dos castelos ou longe deles,
Às vezes alegre, quase sempre triste.
Cá e lá vai, não dorme,
Para que seu caminho não se interrompa.

Longe de ser ilimitado, como geralmente se acreditou, seu poder é bem menor do que o de um industrial ou qualquer proprietário de nossos dias, porque ele jamais tinha a propriedade absoluta de seu domínio.

Dependia sempre de um suserano, e os suseranos, mesmo os mais poderosos, dependiam do rei. Em nossos dias, segundo a concepção romana, o pagamento de uma terra dá pleno direito sobre ela.

Na Idade Média não era assim. No caso de má administração, o senhor incorria em penas que podiam chegar ao confisco de seus bens.

Assim, ninguém governa com autoridade completa e não escapa ao controle direto daquele de quem ele depende. Essa repartição da propriedade e da autoridade é um dos traços mais característicos da sociedade medieval.

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge” - Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)


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terça-feira, 30 de maio de 2017

Testemunho concludente:
a dignidade do camponês na arte medieval

A dignidade dos camponeses se reflete em suas roupas e na distinção no trabalho.
A dignidade dos camponeses se reflete em suas roupas e na distinção no trabalho.
Luis Dufaur
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Valerão como um hino à glória do camponês as miniaturas das Très riches heures du Duc de Berry ou o Livre des prouffictz champestres, iluminado pelo bastardo Antoine de Bourgogne, ou ainda os pequenos quadros dos meses na fachada de Notre-Dame e em tantos outros edifícios.

Notemos que em todas estas obras de arte, executadas pela multidão ou pelo amador nobre, o camponês aparece na sua vida autêntica: removendo o solo, manejando a enxada, podando a vinha, matando o porco.

Haverá uma outra época, uma só, que possa apresentar da vida rural tantos quadros exatos, vivos, realistas?

Que individualmente determinados nobres ou determinados burgueses tenham manifestado desdém pelos camponeses, é possível e mesmo certo.

Mas isso não existiu em todas as épocas?

A mentalidade geral, contando com hábitos sarcásticos da época, tem muito nitidamente consciência da igualdade fundiária dos homens no meio das desigualdades de condição.

O jurista Philippe de Novare distingue três tipos de humanidade:

as “gentes francas”, isto é, “todos aqueles que tiverem franco coração; [...] e aquele que tiver coração franco, donde quer que tenha vindo, deve ser chamado franco e gentil, porque se é de um mau lugar e é bom, tanto mais honrado deve ser”.

Mercado de frutas e verduras. Afresco no Castello di Issogne, Val d'Aosta.
Mercado de frutas e verduras. Afresco no Castello di Issogne, Val d'Aosta.
A qualidade das roupas e da saúde dos camponeses rivaliza com as dos citadinos.
As “pessoas de ofício” e os “vilões”, isto é, aqueles que não prestam serviço senão constrangidos pela força, “todos aqueles que o fazem são justamente vilões, quer fossem servos ou jornaleiros. [...] Fidalguia e valor de antepassados não faz senão prejudicar um mau herdeiro desonrado”.

Poderíamos citar grande número dessas proclamações de igualdade.

Será possível dizer, de modo mais geral, que uma pessoa que ocupou um lugar de primeiro plano nas manifestações artísticas e literárias de uma nação tenha podido ser por ela desprezado?

Sobre este ponto, como sobre tantos outros, confundiram-se as épocas.

Aquilo que é verdade para a Idade Média não o é para tudo aquilo a que chamamos o Antigo Regime.

A partir do fim do século XV produz-se uma cisão entre os nobres, os letrados e o povo.

Futuramente as duas classes viverão uma vida paralela, mas penetrar-se-ão e compreender-se-ão cada vez menos.

Venda de secos e molhados, Castello di Issogne, Val d'Aosta. Proporcionalidade das diversos graus da ordem social.
Venda de secos e molhados, Castello di Issogne, Val d'Aosta.
Proporcionalidade das diversos graus da ordem social.
Como é natural, a alta sociedade drenará para si a vida intelectual e artística, e o camponês será banido da cultura como da atividade política do país.

Desaparece da pintura — salvo raras exceções, mas em todo caso da pintura em voga — da literatura, como das preocupações dos grandes.

O século XVIII já não conhecerá senão uma cópia completamente artificial da vida rural.

Que do século XVI até nossos dias o camponês tenha sido desprezado, pelo menos desdenhado e mal conhecido, não resta qualquer dúvida.

Mas também está fora de questão que na Idade Média ele teve um lugar de primeira ordem na vida do nosso país.


(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)



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